Logo R7.com
RecordPlus
Domingo Espetacular

Ex-integrante de quadrilha acaba na pobreza após aterrorizar cidades pequenas no Nordeste

Pedro Rocha Filho realizou mais de cem assaltos a bancos entre os anos 80 e 90

Domingo Espetacular|Do R7

  • Google News

Pedro Rocha Filho foi integrante de uma quadrilha que aterrorizava cidades pequenas no interior do Nordeste. Na ficha criminal, mais de cem assaltos a bancos entre os anos 80 e 90. Hoje idoso, aposentado, vivendo na pobreza e com uma certeza: o crime não compensa. Ele mora em uma casa alugada em Mossoró, interior do Rio Grande do Norte.  

Ainda vai fazer 68 anos, mas o corpo franzino e a dificuldade de locomoção sugerem uma aparência de mais idade. Parcialmente cego e surdo, com lapsos de memória e fala confusa, Pedro Rocha Filho em nada lembra sua versão que, entre a década de 80 e o início dos anos 2000, aterrorizou o interior do Nordeste. Pedro integrava uma quadrilha de assaltantes de bancos que espalhava medo e pânico por onde passava. Isso em uma época em que facções, crime organizado e novo cangaço eram expressões que não faziam parte do vocabulário policial.  

Um promotor que acompanhou vários processos de Pedro Rocha comentou o caso: "Se juntou a umas outras pessoas, coincidentemente não eram criminosos natos, mas criminosos ocasionais e quando ele se deu conta já estava nas páginas policiais em confrontos com a polícia, policiais foram assassinados e ele começou a ganhar alcunha de matador de polícia e isso trouxe para ele grandes problemas".  

Desde pequeno, Pedro Rocha Filho sempre deu dor de cabeça. Na escola, fazia de tudo para não assistir as aulas. Ainda adolescente, Pedro Rocha até trabalhou em alguns lugares, mas logo depois de completar 18 anos, escolheu o caminho torto.  

O primeiro crime foi no centro de Mossoró, em dezembro de 1988. Segundo os jornais da época, passava um pouco das três da manhã quando 12 assaltantes chegaram em uma caminhonete renderam e amarraram três seguranças que vigiavam a loja e a rua. Jogaram o carro de marcha a ré contra a porta de ferro. Com a loja arrombada, fizeram a festa. José Nuncio Júnior era o gerente da loja na época. Ele foi avisado do assalto ainda de madrugada. Mas na estreia como assaltante, Pedro Rocha Filho foi perseguido pela polícia por dias. Durante os tiroteios, foi acusado de balear e matar um policial, o que ele nega até hoje. A vida atrás das grades durou pouco. Pedro Rocha fugiu e retomou a rotina de assaltos, para desgosto e sofrimento da família. Foram mais de cem roubos a bancos em praticamente todos os estados nordestinos.  

Em Apodi, um município do oeste do Rio Grande do Norte, a mais ou menos 80 quilômetros de Mossoró. Esta cidade era visitada com frequência pelo bando de Pedro Rocha Filho e o alvo favorito dos assaltantes eram os bancos. Hoje, sentado no banco da praça que nem existia na época dos assaltos, Pedro Rocha pode até não se lembrar das vezes em que esteve na porta do banco, com seu inseparável fuzil, porém a tática usada pelo bando essa ainda está viva na memória.  

Ele conta por que raramente a polícia chegava a tempo de impedir os assaltos: "Toda vida a gente segurava os policiais acolá, pegava as armas deles e já levava pro carro, pro banco". Pela segunda vez em toda a vida, Pedro Rocha Filho entrou na agência bancária pela porta da frente.  

Coube ao ex-jornalista e hoje agente penal, Marcio Morais, a tarefa de resgatar a história de Pedro Rocha Filho depois de conhecê-lo quando dirigia uma penitenciária em Mossoró: "Não era aquele Pedro Rocha que diariamente estava estampado nas capas dos jornais, nos programas de televisão, de rádio. Chegava um homem acabado, sem advogado, dependendo da defensoria pública. E vendo aquilo eu disse, dá para fazer um livro, não para romantizar o crime, mas para mostrar que Pedro Rocha foi um grande assaltante e que hoje prova que o crime não compensa".  

Por incrível que pareça, o homem que escreveria um livro sobre a carreira criminosa de Pedro Rocha Filho quase foi morto por integrantes da quadrilha. Foi em um tempo em que Marcio, aos 21 anos, era jornalista e depois que ele escreveu uma reportagem sobre um roubo da quadrilha praticado no Piauí. Marcio estava na porta de casa com uma filha no colo, quando uma moto com dois homens se aproximou. Sem aviso, um deles abriu fogo. Marcio ainda conseguiu proteger a criança, mas levou um tiro no quadril. Depois do atentado, ele teve que mudar de cidade. Mais tarde, fez duas cirurgias para botar próteses nos quadris. Mas nem por isso quis se vingar quando encontrou Pedro Rocha na cadeia.  

Pelo livro é possível ficar sabendo que a cada assalto bem-sucedido o bando se dispersava pelos estados do Nordeste. Só esperando a hora de se reagrupar para novos roubos. Para fugir de cercos policiais, eles usavam a caatinga como camuflagem. A seca inclemente obrigava a quadrilha a parar. Para matar a sede e a fome nos povoados. E é aí que Pedro Rocha explica onde gastava parte do dinheiro roubado.  

Mas ele não era só um Robin Hood do sertão. Pedro Rocha também lavou muito dinheiro roubado comprando casas, abrindo restaurantes, lojas e prostíbulos. Tudo sob uma fachada legal. Ao mesmo tempo, os processos contra ele iam se acumulando. Roubos, homicídio, fugas, foram pelo menos dez condenações à revelia. Somadas, as penas chegam a 131 anos e oito meses de prisão. Da fortuna roubada durante anos, nada sobrou. Ele mora de aluguel, depende da família e tem direito a um benefício assistencial, no valor de um salário-mínimo.  

Em 2001, a caminho de mais um assalto no Ceará, sofreu um grave acidente de carro que resultou na surdez e na cegueira parciais. Foi o início do fim. Um ano depois, já fraco, doente e desarmado, foi preso em Alagoas e transferido para Mossoró.  

Em 2021, por causa da saúde precária e do bom comportamento, teve direito a prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica. Que foi retirada há dois anos, por problemas de circulação. Pedro Rocha precisa esperar mais seis anos, até 2032, para ter a pena extinta. É que pela lei brasileira, ninguém pode ficar mais de 30 anos preso. 

Excepcionalmente, com autorização da Justiça, ele pode ir à cidade onde nasceu, Janduís, a cem quilômetros de Mossoró. Rever parentes, amigos, caminhar pelas ruas onde cresceu. Um tempo em que o menino apenas sonhava em ganhar o mundo, ser livre. Sem perceber que a maior liberdade é estar do lado certo da lei. 


O PlayPlus agora é RecordPlus: mais conteúdo da RECORD para você, ao vivo e de graça. Baixe o app aqui!

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.