Explorados por esquema criminoso, paraguaios trabalham em produção clandestina de cigarro no Brasil
Receita Federal apreendeu R$ 789 milhões em cigarros contrabandeados em 2024; mais de 50% do mercado brasileiro foi contaminado por produtos ilegais
Domingo Espetacular|Do R7
Uma investigação exclusiva revela que o chamado “cigarro paraguaio”, vendido ilegalmente nas ruas, agora é produzido no Brasil em uma conexão entre quadrilhas dos dois países. Nas fronteiras, milhares de cigarros são apreendidos diariamente. Em Foz do Iguaçu, uma embarcação caseira foi apreendida pela Polícia Federal com cerca de 100 caixas com 1 milhão de cigarros. Parte das apreensões é transportada em barcos pelo rio para fugir da fiscalização na ponte. De acordo com uma auditora fiscal, a carga atraca em portos clandestinos e segue por estradas em carros comuns.
No ano passado, postos da Receita Federal apreenderam R$ 789 milhões em cigarros contrabandeados. Segundo especialistas, mais de 50% do mercado brasileiro está contaminado por produtos ilegais, chegando a 54% em alguns estudos. Há cigarros com até seis vezes mais alcatrão e nicotina que o permitido pela Anvisa, além de chumbo, insetos e coliformes fecais. As impurezas agravam riscos à saúde pública e pressionam a rede de atendimento. Desde então, marcas paraguaias passaram a ser produzidas e até falsificadas no Brasil. Em barracões aparentemente inofensivos, máquinas operam dia e noite fabricando cigarros. Nas últimas duas décadas, 76 fábricas clandestinas foram fechadas no país.
Para especialistas, produzir no Brasil significa não enfrentar a fiscalização da fronteira. Milícias também fabricam cigarros, impondo monopólio nos territórios onde atuam, inclusive falsificando marcas paraguaias. O produto é mais procurado por ser mais barato, justamente por não pagar impostos.
O Paraguai produz 45 bilhões de cigarros por ano, sete vezes mais do que seu consumo interno, e o excedente abastece o contrabando para o Brasil. Na cidade de Hernandarias, está a maior concentração de tabacaleiras do país. Uma delas ocupa 190 mil metros quadrados e anuncia 961 funcionários. Outra foi desativada, e parte de seu maquinário antigo acabou atravessando a fronteira, abastecendo fábricas clandestinas no Brasil.
Delegados afirmam que o esquema impressiona pela capacidade de transportar e montar máquinas pesadas, que chegam desmontadas e são remontadas por mão de obra especializada. É aí que entram os trabalhadores paraguaios, mantidos em condições análogas à escravidão.
O Ministério Público paraguaio afirma não ter dúvidas de que há trabalho escravo nas fábricas brasileiras. A promotora de Ciudad del Este descreve como um regime de escravidão total, com privação de documentos, comunicação, ventilação e condições mínimas de segurança.
O silêncio das vítimas dificulta as investigações. Segundo promotores paraguaios, elas não colaboram por medo e ameaças, tornando o processo mais lento. As autoridades dos dois países estão preocupadas com o avanço rápido de um mercado ilegal milionário e prejudicial à saúde. “São facções que operam nessas áreas, uma associação criminosa internacional voltada à fabricação de cigarros ilegais no Brasil”, afirma Rodolpho Ramazzini, da Associação Brasileira de Combate à Falsificação. “A gente fecha uma fábrica, e em dois meses outra abre, para atender um mercado em crescimento”, conclui.
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