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Trabalhadores expostos ao mercúrio travam batalha judicial por indenização há décadas em São Paulo

Justiça condenou multinacional a pagar R$ 300 mil a cada vítima, além de uma pensão mensal, mas a empresa segue recorrendo

Domingo Espetacular|Do R7

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Dezenas de ex-funcionários de uma multinacional que fabricava lâmpadas a base de mercúrio sofrem de intoxicação crônica pelo contato com o metal. A Justiça já condenou a empresa em duas instâncias, com a última decisão decretada em 2024, mas até agora ninguém recebeu indenização. Alguns operários morreram doentes sem ter acesso a reparação a que tinham direito.

O eletricista Aurênio Cipriano, que foi exposto à substância por cinco anos, teve uma morte lenta aos 68 anos. A esposa dele conta que, muitas vezes, ele precisava limpar o mercúrio para ter acesso a alguma peça importante durante o trabalho e que nunca recebeu nenhum treinamento para evitar o contato. Segundo o laudo médico, Aurênio sofria de síndrome neuropsíquica devido ao mercurialismo.

Graciete Maria da Silva foi ajudante de produção por nove anos e saiu da empresa em 2006. Ela também tinha contato direto com o mercúrio enquanto revisava as lâmpadas. Hoje, aos 56 anos, teme perder a memória. “Eu tenho pontinhos luminosos no meu cérebro e eles mostraram no Hospital das Clínicas que a causa é o mercúrio e pode levar ao Alzheimer”, conta.

Lapsos de memória são comuns em quem ficou exposto ao mercúrio. Para Pedro Domingos de Oliveira, que trabalhou por 19 anos na empresa e se aposentou por invalidez aos 52 anos, esse é só um dos sintomas provocados pela intoxicação. Ele sofre com lesão e disfunção cerebral, transtorno de personalidade e do comportamento, depressão e neurastenia, uma síndrome de fadiga mental e física.

Problemas dentários também são queixas comuns entre os intoxicados. Nem os implantes resistem na boca de Terezinha Ferreira, que trabalhou de 1990 a 2006 com contato direto com o metal. Mas isso não é o que mais incomoda a aposentada. “Às vezes eu perco a paciência com as coisas. Às vezes, eu não consigo organizar as coisas, é tudo desorganizado. E eu vejo, eu fico nervosa. Eu vou fazer, eu não consigo fazer”, afirma.

Em 2024, o Tribunal Regional do Trabalho manteve a condenação que prevê o pagamento de indenização de R$ 300 mil a cada vítima, mais pensão mensal, mas a empresa recorreu novamente. O processo cita que, só no ano de 2004, “a quantidade de resíduos contendo mercúrio chegou a 150 toneladas”. O documento concluiu ainda que “a produção contaminou o solo no entorno da fábrica, assim como o lençol freático”.

Considerado um dos dez produtos químicos mais preocupantes para a saúde pública, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o mercúrio é um potente neurotóxico. Em dezembro de 2025, o Brasil proibiu a fabricação e importação de lâmpadas com o metal, mas os comerciantes ainda podem vender seus estoques até o fim de 2026.

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