Polícia investiga espancamentos e internações forçadas em clínica de reabilitação de Itaboraí (RJ)
Relatos apontam espancamentos, intimidações, abusos e internações forçadas por um suposto 'serviço de captura'
Balanço Geral RJ|Do R7
A clínica de reabilitação Eu Quero Viver, localizada em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio, está no centro de uma série de denúncias graves envolvendo tortura, maus-tratos e cárcere privado contra dependentes químicos. Os relatos foram feitos por ex-internos e familiares, que afirmam ter sofrido ou presenciado agressões dentro da unidade. Segundo os depoimentos, pacientes seriam alvo de espancamentos, intimidações e abusos físicos e psicológicos. Há ainda relatos de internações forçadas, realizadas por um chamado “setor de captura”, supostamente executado por dependentes químicos, que prestam serviços para o local, para buscar dependentes sem autorização judicial ou familiar. Além disso, o local não possui autorização para atuar como clínica de reabilitação, já que o CNPJ informa que presta serviços de uma comunidade terapêutica, ou seja, proibida por lei de fazer internações e remoções de pacientes. O proprietário da unidade, Wladimir da Silva Monteiro, é citado nas denúncias. De acordo com os relatos, mesmo ciente das práticas de violência, ele não teria tomado providências para impedir abusos. Wladimir possui extensa ficha criminal, onde constam crimes como ameaça, estelionato, associação criminosa, lesão corporal e homicídio provocado por asfixia em unidade de saúde. Ele também foi preso em flagrante em 2012 por roubo a coletivo. Em três anos de funcionamento, a clínica acumula pelo menos 11 boletins de ocorrência, levantados pela reportagem ao longo de um mês de investigação, que apontam desde maus-tratos, lesão corporal, morte sem assistência e até estupro de vulnerável. A falta de fiscalização é um dos fatores mencionados por quem denuncia o local. Ex-pacientes afirmam que porta trancada, privação de liberdade e condições degradantes seriam comuns. O caso veio à tona após um rapaz de 29 anos ter sido internado à força no local a mando da ex-namorada, que pagou cerca de 10 mil reais pelo serviço. Quando os agentes chegaram ao local, constataram a irregularidade e prenderam a ex-namorada da vítima, os suspeitos de terem sequestrado o jovem e ainda dois homens que se apresentaram como administradores da clínica, mas que se tratavam de dependentes químicos, de acordo com a Polícia Civil. Dias depois, outro homem também foi preso apontado como “dono do local”. No entanto, ele seria apenas um dos coordenadores e não consta no quadro de sócios registrados no CNPJ. A Polícia Federal e o Ministério Público pediram que a Polícia Civil investigasse crimes de tortura e maus tratos que estariam ocorrendo no local, mas apesar das denúncias, registradas desde o início de 2024, a clínica segue em pleno funcionamento. Algumas das vítimas buscam agora responsabilização por danos morais e materiais, relatando traumas e prejuízos provocados pelo período em que permaneceram na unidade. Questionada sobre o funcionamento da unidade e se houve fiscalização no local nesse período, a prefeitura de Itaboraí se limitou a dizer que investiga a clínica e que um auto de infração foi lavrado contra o local, mas não especificou quando isso ocorreu, nem os motivos. A reportagem tentou entrar em contato com o dono da clínica, Wladimir, e com a defesa dele, mas não teve retorno. A defesa do proprietário e da clínica, caso se manifeste, será incluída na atualização desta matéria.
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