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Dicesar revela os bastidores de uma vida entre a arte e o trabalho CLT: ‘Aproveito as folgas para dar conta de tudo’

Maquiador conta como divide a rotina entre o aeroporto de Guarulhos e os palcos como Dimmy Kieer

Entrevistas|Ana Damasio*, do site oficial

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Artista abre o jogo sobre carreira, dinheiro, aposentadoria, rotina como CLT e os desafios de manter uma drag queen por 36 anos Edu Moraes/RECORD

O Acerte ou Caia! deste domingo (30) recebe Dicesar pela segunda vez. Figura antiga na noite paulistana, bem antes de virar nome nacional e maquiador de formação, ele começou como Drag Queen ainda nos anos 1990, cantando Culture Club e lotando boates.

Nesta segunda participação no programa, Dicesar contou ao site oficial que a experiência foi bem diferente da estreia: “Essa foi a minha segunda vez no programa. Na primeira, eu estudei bastante: assisti aos episódios, pesquisei e fiquei fazendo perguntas aleatórias no Google. Deu super certo e me saí muito bem, fui o penúltimo a ser eliminado e quase ganhei. Agora, não tive tempo de estudar por causa da correria”.


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O maquiador revela que aceitaria o convite quantas vezes fosse possível só para dividir o palco com o comandante do game show, Tom Cavalcante: “É sempre maravilhoso, Tom é extremamente agradável, gentil e querido. Sinto que, quando a câmera liga, ele é um amor, e quando desliga, ele consegue ser ainda mais incrível! Ele é um lorde: atencioso, divertido e muito generoso. Tenho uma verdadeira admiração por ele”.

“Tom Cavalcante é extremamente agradável, gentil e querido. Sinto que, quando a câmera liga, ele é um amor, e quando desliga, ele consegue ser ainda mais incrível!”

(Dicesar)

Além dos adversários, o cronômetro correndo contra o tempo também é um desafio à parte no Acerte ou Caia!: “O cronômetro é o meu maior medo e desafio! Parece que aquele bichinho não para nunca! O Tom começa a fazer a pergunta e o negócio já está girando, a cabeça da gente fica completamente enlouquecida. Não é fácil, o programa é uma pressão pura!”, afirma Dicesar.


Se vencer o Acerte ou Caia!, ele já tem planos para a bolada: o valor será destinado para ajudar a concluir a construção de sua futura casa no Paraná, terra onde nasceu, foi criado e planeja morar após a aposentadoria.

Do confinamento para o Brasil

O público conheceu Dicesar em 2010, quando ele participou de um reality show. Fora das telas, o maquiador já vivia havia anos sob os holofotes e as perucas de sua personagem Dimmy Kieer.


Com décadas de carreira dedicadas à arte dos palcos e das boates, Dicesar acompanhou de perto a transição de um movimento marginalizado para um verdadeiro fenômeno de massa.

“Ser artista Drag Queen há 36 anos no Brasil significa que a gente passou por muitos perrengues. No começo, eu só tinha a MTV e revistas de moda para buscar referências, eu lia a Vogue ou a Elle quando ia ao dentista, a cabeleireiros, estilistas e maquiadores. Às vezes, eu até deixava de jantar para conseguir comprar uma revista de moda! Eu precisava estudar muito o personagem para dublar uma música na boate. Hoje em dia está tudo muito fácil, as drag queens atuais estão no céu! Basta apertar um botãozinho no Instagram e nas redes sociais para ver artistas e referências do mundo inteiro. Quem passou o perrengue de verdade fomos nós, que levamos lâmpada na cabeça, desaforos e enfrentamos o preconceito de frente nos anos 1980 e 1990. Hoje, felizmente, tudo é muito mais acessível”.


O amor pela arte drag não mudou nada, mas a realidade da noite hoje é outra. Com uma nova geração dominando os palcos, Dicesar sente o preconceito com a idade em um meio que descarta quem tem história. É um desabafo sincero sobre a falta de apoio do governo e a luta diária para conseguir pagar as contas depois de tantos anos na cena.

“Uma das minhas maiores alegrias é simplesmente estar em cena, no palco, ter trabalho, ir para o teatro, fazer stand-up e show. Já o maior desafio atualmente é a idade. O mercado muitas vezes não quer mais drag queens com 36 anos de carreira, eles buscam sempre gente nova que está começando. Minha grande luta hoje é deixar bem claro que nós somos referências, ícones de uma geração, e que estamos vivos e precisamos trabalhar! Trabalho há 36 anos na noite e a gente não tem registro de nada. Se houvesse um suporte do governo para nos valorizar como artistas, seria diferente. Como não tem, preciso continuar fazendo shows e na batalha para conseguir sobreviver. Não é fácil”.

Mas se engana quem pensa que a Dimmy parou no tempo. Para acompanhar o ritmo acelerado de hoje, Dicesar corre atrás de referências modernas para conquistar a geração Z: “O meu processo de criação com a Dimmy é acompanhar de perto o que as pessoas estão ouvindo e escutar músicas novas para me conectar com a nova geração. Mas, felizmente, eu também tenho o meu público 50+ e 60+ que ama a Dimmy clássica, só que com um figurino atual. Para equilibrar tudo, conto com um estilista moderno e um DJ que faz remixes e remasterizações atuais para as músicas. Eu gosto de me inspirar em filmes e fazer caracterizações icônicas, como Moulin Rouge, Cher ou Beyoncé, além de trazer os clássicos dos anos 1980 e 1990 com releituras modernas. A nova geração cobra muito da gente, o que é cansativo, mas ao mesmo tempo é divertido e muito gratificante. Estar no palco cantando, dublando e dançando é o verdadeiro combustível”.

“Estar no palco cantando, dublando e dançando é o verdadeiro combustível”

(Dicesar)

Manter uma personagem impecável por quase quatro décadas exige criatividade, mas também pesa bastante no bolso. Ao analisar os excessos do passado, o maquiador revela qual puxão de orelha daria em si mesmo para não passar sufoco na hora de pensar na aposentadoria.

“Se a Dimmy de hoje pudesse falar com o Dicesar lá do começo, o conselho seria: ‘Pense no futuro e pare de gastar em excesso! Seja criativo e aproveite melhor os poucos looks que você tem’. Daria a dica de pegar aquela mesma peruca, usar solta, depois fazer um penteado preso, colocar uma flor, uma borboleta... e continuar com a essência que a Dimmy sempre teve. A noite nos cobra muito e a gente acaba gastando demais. Eu diria para segurar a onda e guardar um dinheiro toda semana ou todo mês para pensar na aposentadoria. Só depois do reality consegui comprar minha casa e ter uma segurança, mas trabalho até hoje para pagar o condomínio e bancar o luxo da Dimmy. O Dicesar gasta pouco, mas a Dimmy gasta muito! Então o conselho é: põe a mão no bolso e segura a onda. Você não vai ser drag queen por apenas uma semana, são 36 anos de carreira! Gaste menos e pense no amanhã”.

Artista e CLT

De dia, Dicesar troca o glitter e o glamour de Dimmy pelo uniforme de trabalho do aeroporto de Guarulhos (SP). Atualmente, batendo ponto como CLT, ele encara a puxada escala de aeroporto, mas garante que a nova função trouxe um equilíbrio perfeito para a sua saúde mental.

“Trabalhar como CLT durante o dia me mantém ocupado. Sobre a rotina de artista, eu aproveito as minhas folgas para dar conta de tudo. Minha escala é 6x1 e 6x2. Quando tenho dois dias seguidos, vou ao Paraná ver minha família. Quando tenho apenas um dia, aproveito para gravar podcasts, fazer fotos, vídeos e responder às redes sociais. Dá para conciliar bem! Eu costumo dizer que o trabalho no aeroporto ocupa a minha mente, e ser artista ocupa a minha alma. Eu me dou por inteiro no palco”.

“Trabalhar como CLT durante o dia me mantém ocupado. Sobre a rotina de artista, eu aproveito as minhas folgas para dar conta de tudo. Minha escala é 6x1 e 6x2″

(Dicesar)

Essa rotina dividida entre o crachá e os cílios postiços acabou virando uma verdadeira febre na internet. O lema “CLT de dia e artista à noite” aproximou ainda mais o público do artista, que viu suas redes sociais bombarem ao mostrar o corre do dia a dia.

“Eu assumi com muito orgulho que sou CLT de dia e artista à noite nas redes sociais. A única diferença é que agora não faço mais trabalhos de madrugada. Faço eventos, festas e casamentos que começam às sete, oito ou onze da noite, mas à meia-noite preciso estar em casa para dormir e poder trabalhar no dia seguinte. As pessoas se identificam muito com isso! Eu posto meus flyers, minhas participações, vídeos cantando, dançando e me divertindo no palco. Por causa dessa rotina real, meu fã-clube aumentou demais. Isso é maravilhoso!”.

Começos e recomeços

Dicesar tem a capacidade de se reinventar sem medo dos julgamentos. Ao longo dos anos, ele já foi de tudo um pouco, sem medo de tentar e começar do zero. A fama passa, os boletos chegam e, se o vento mudar novamente, ele garante que se reinventa outra vez sem pensar duas vezes.

“Essa força para recomeçar e passar pelos altos e baixos financeiros e profissionais vem da minha família, nós somos muito honestos em tudo o que fazemos. Eu aprendi com a minha vozinha, com a minha mãe e com os meus tios a só dar o passo do tamanho da minha perna. Nunca quis nada dos outros, sempre lutei pelo que está ao meu alcance. Além disso, eu não tenho preguiça nenhuma de me reinventar! Se nada der certo na arte, eu continuo trabalhando no aeroporto até me aposentar. Se precisar, viro vendedor, volto a dar aula de maquiagem... Eu me reinvento todos os dias. O segredo é não ter preguiça e acreditar que, uma hora ou outra, as coisas vão dar certo”.

“Se nada der certo na arte, eu continuo trabalhando no aeroporto até me aposentar. Se precisar, viro vendedor, volto a dar aula de maquiagem... Eu me reinvento todos os dias”

(Dicesar)

Com os pés bem firmes no chão do aeroporto, mas com a cabeça aberta para o mundo, Dicesar não fecha portas para nenhuma oportunidade. Longe de se acomodar, ele encara o amanhã com um otimismo contagiante e deixa claro que, se pintar um convite irrecusável, ele recomeça tudo de novo em qualquer canto do planeta.

“O público pode esperar me ver mudando de novo e agarrando o que vier de oportunidade! Outro dia recebi um convite para ir para fora: se nada der certo aqui, vou para Portugal ou para a Espanha recomeçar do zero. Uma boate me chamou para trabalhar em Barcelona; se eu sair do meu emprego atual, faço duas malas, guardo um dinheirinho e vou embora! Se um reality me chamar, não importa de onde seja, fecho a minha casa, deixo meu gato com a vizinha, aviso a minha mãe que volto em três meses e vou embora. Podem esperar de mim sempre o melhor, nunca o pior, não sou de ficar reclamando da vida ou chorando nas redes sociais. Temos que mostrar que o melhor está por vir! Atualmente, estou me dedicando ao meu canal do YouTube e estou muito feliz. Aos pouquinhos, a gente vai recomeçando tudo de novo!”.

Se o assunto é o Acerte ou Caia!, Dicesar mostra que o espírito competitivo continua afiadíssimo: “Se eu pudesse escolher alguém para enfrentar, seriam aqueles participantes que caíram logo de primeira nos episódios passados. Queria enfrentar quem foi eliminado no começo do programa, porque aí eu já sei que vai ser uma lavada! Então, podem chamar qualquer um que tenha caído primeiro, porque eu vou vencer! Mas, lógico, eu iria estudar antes. Estudar com antecedência é a grande chave do sucesso, além de prestar muita atenção em tudo o que o Tom Cavalcante fala”.

*Estagiária sob supervisão de Juliana Lambert

O Acerte ou Caia! é uma produção da Boxfish, com direção de David Feldon e direção artística de Cesar Barreto, que vai ao ar nas tardes de domingo da RECORD.

Todas as edições do programa podem ser acessadas na íntegra no RecordPlus, a plataforma de streaming da emissora.

Confira os participantes do Acerte ou Caia! deste domingo (30)

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