Vila Pouca de Aguiar: o ‘Giro’ continua a viagem pelas tradições, memórias e tesouros da região
Giro|Do R7
Vila Pouca de Aguiar tem paisagens bonitas, património, natureza e história. Mas há uma coisa que se percebe depressa quando se anda por aqui: o maior património desta vila são mesmo as suas gentes.
Desta vez, o caminho fez-se menos pelos monumentos e mais pelos rostos, pelas memórias e pelos ofícios que continuam a dar identidade a esta terra. Entre um museu etnográfico montado com amor às raízes, um tear centenário, miniaturas impressionantes de monumentos portugueses, a força da produção agrícola local e um moinho com mais de 300 anos, a viagem por Vila Pouca de Aguiar revela aquilo que muitas vezes não cabe num mapa: a alma do lugar.
O museu etnográfico do Sr. Acácio
Em Cabanes, Alvão, a porta da Vivenda Almeida abre-se para muito mais do que uma casa. Ali vive-se um verdadeiro mergulho na memória rural e popular da região, graças ao trabalho do Sr. Acácio, guardião de um museu etnográfico que é, acima de tudo, um ato de amor às origens.
O espaço reúne mais de meio milhar de peças, entre objetos antigos, móveis, utensílios, miniaturas e trabalhos artesanais feitos pelo próprio. Há peças compradas, peças resgatadas e peças criadas à mão. O resultado é um lugar onde o moderno e o antigo convivem, mas onde o passado tem um peso especial.
Cada objeto conta uma história de trabalho, de engenho e de vida no interior. E é precisamente isso que torna este museu tão especial: não se limita a expor coisas antigas, explica formas de viver.
A nora e a inteligência do mundo rural
Entre as demonstrações mais curiosas está a nora, mecanismo tradicional usado para puxar água e encaminhá-la para os terrenos agrícolas. Ao experimentar a força necessária para a pôr a funcionar, percebe-se melhor a dureza do trabalho antigo.
Era este sistema que permitia regar culturas como a batata, o milho e outros produtos da terra. Noutros tempos, em vez de pessoas, eram um burro ou uma vaca que faziam esse esforço. Hoje, vê-lo em funcionamento é mais do que assistir a uma demonstração. É compreender como a agricultura dependia de soluções engenhosas e de muito trabalho físico.
As criações em fósforos e uma Torre Eiffel feita com paciência
O Sr. Acácio viveu muitos anos fora de Portugal, e essa experiência também se reflete no seu espólio. Algumas das peças mais impressionantes nasceram durante esse período, incluindo uma Torre Eiffel feita com 13.200 fósforos e 220 horas de trabalho.
A peça foi construída na Suíça e transportada até Portugal dentro de uma estrutura de madeira feita à medida, cuidadosamente protegida para não perder um único fósforo. É um daqueles trabalhos que obrigam a parar e a olhar duas vezes, primeiro pela escala, depois pela persistência que exigem.
Mais do que uma peça favorita, acabou por se tornar uma das mais admiradas por quem passa pelo museu. E isso diz muito sobre a forma como a criatividade popular pode transformar materiais simples em algo extraordinário.
Em Reguengo, a tecelagem tradicional resiste no tear de Palmira
Da memória dos objetos passa-se à memória dos gestos. Em Reguengo, o tear de Palmira é uma verdadeira cápsula do tempo.
Os teares de madeira com que trabalha são mais do que centenários. Vieram da avó, das tias, de gerações anteriores. E a sua relação com este ofício começou precisamente assim, em criança, a observar as mulheres da família a tecer, a ajudar na montagem e, pouco a pouco, a aprender a fazer.
Hoje, Palmira é uma das últimas guardiãs desta arte em Vila Pouca de Aguiar. E isso tem um peso enorme.
O valor de saber fazer com as mãos
Num tempo em que quase tudo se acelera e se industrializa, entrar neste espaço é lembrar que há trabalhos que não podem ser substituídos por máquinas. A tecelagem tradicional exige tempo, técnica, força e sensibilidade.
No tear, cada cruzamento de fios pede atenção. Cada escolha de cor pede intuição. E cada peça acabada transporta consigo uma dose de paciência que só quem trabalha assim conhece bem.
Palmira fala desse saber com orgulho e com gratidão. Sente-se honrada por continuar um ofício que muita gente já não conhece, e por manter viva uma tradição que ensina quanto trabalho existe por detrás de uma peça feita à mão.
As miniaturas do Sr. Guilhermino, em Telões: arte sem preço
De Reguengo até Telões, a expectativa cresce. E quando finalmente se entra no espaço do Sr. Guilhermino, percebe-se porquê.
O seu trabalho é de deixar qualquer pessoa sem palavras. Ele cria miniaturas de grandes monumentos, com um rigor de escala e um detalhe tão impressionantes que, por momentos, o olhar vacila entre a miniatura e o real.
O que mais surpreende não é apenas a beleza final. É o processo, a precisão e o respeito pela arquitetura original.
Pedra que não é pedra, madeira que se transforma em monumento
Algumas peças são feitas com estruturas interiores de madeira e acabamentos que imitam a pedra real. O efeito é extraordinário. Não se trata de uma reprodução simplificada, mas de um trabalho minucioso que procura recriar texturas, proporções e presença.
É essa fidelidade ao detalhe que faz destas obras algo tão especial. O Sr. Guilhermino não faz apenas maquetas. Faz interpretações artísticas profundamente informadas da história e do património português.
O Mosteiro da Batalha
Entre as várias criações, o Mosteiro da Batalha ocupa um lugar muito importante. Foi a primeira grande peça, iniciada em 2011, depois de uma conversa sobre uma maqueta vista na Praça da Alegria, no Porto.
A partir desse momento, o trabalho que tinha em mãos ficou em pausa. O novo desafio impôs-se. O Mosteiro da Batalha foi concluído em 38 dias e tornou-se o ponto de partida de um percurso notável.
De Vila Pouca de Aguiar para o mundo: castanha, frutos vermelhos e mirtilo
Vila Pouca de Aguiar também se afirma pela capacidade de produzir e exportar o melhor da sua terra. E aqui a agricultura mostra outro lado da identidade local: o da inovação, da qualidade e da ligação aos mercados internacionais.
A castanha, o ouro de Trás-os-Montes
Há uma razão para a castanha ser muitas vezes chamada de ouro de Trás-os-Montes. O seu valor económico e simbólico é enorme.
Em Vila Pouca de Aguiar, a castanha segue para exportação para países como:
- Suíça
- Áustria
- Alemanha
Através do frio e de tecnologia adequada, este produto ganha nova vida, preservando qualidade e tornando-se um produto de excelência para diferentes mercados.
Mais do que um alimento tradicional, a castanha é um embaixador da região.
Frutos vermelhos com destino aos supermercados
Outra frente importante é a dos frutos vermelhos. As frutas cuidadosamente selecionadas passam por um processo rigoroso de acondicionamento antes de seguirem diretamente para o consumidor final.
Este percurso, rápido e controlado, garante que chegam às prateleiras dos supermercados com a cor, o sabor e as vitaminas intactos. É um trabalho invisível para muita gente, mas essencial para que a qualidade da origem se mantenha até ao destino.
O mirtilo e a força da exportação
Também o mirtilo parte daqui para vários destinos e usos industriais. Pode seguir para:
- indústrias de compotas - produção de gelados - papas e alimentação infantil - outros mercados internacionais
Este pequeno fruto ajuda a mostrar o potencial do interior do país na produção hortofrutícola. Não se trata apenas de comercializar. Trata-se de projetar a marca Portugal no exterior a partir de um território que alia tradição agrícola e capacidade de adaptação.
O que fica de Vila Pouca de Aguiar
Vila Pouca de Aguiar não se explica apenas pelas paisagens. Sente-se. E sente-se sobretudo através das pessoas que a habitam, que guardam os ofícios, que preservam os lugares, que criam com as mãos e que continuam a acreditar no valor da sua terra.
No fim, percebe-se uma coisa muito simples: Vila Pouca de Aguiar é daquelas terras onde se chega para conhecer um lugar e se acaba a encontrar pessoas, histórias e gestos que ficam connosco.
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