A tapeçaria contemporânea que nasce do tempo, da cor e da memória
Palco Record|Do R7
Há quem comece a tricotar apenas para aprender uma técnica. Outros, com o tempo, descobrem que o fio pode tornar-se uma forma de linguagem.
Proveniente de uma família de tricoteiras, Ju Bock não se limitou a aprender a produzir peças. O percurso foi também um processo de transformação: tricotar como quem escreve, mas com textura, ritmo e matéria. O resultado são obras que carregam presença, silêncio e várias camadas de história.
Do tricô tradicional à tapeçaria autoral
O contato com o tricô começou cedo: primeiro os pontos mais simples, depois as primeiras peças, como cachecóis. Com o tempo, as técnicas tornaram-se mais complexas, as mãos ganharam autonomia e surgiram novas possibilidades criativas.
Houve, contudo, um momento decisivo. A artista deixou de se limitar a peças convencionais e passou a procurar outra escala, novas estruturas e formas de expressão. Esta viragem ocorreu durante a pandemia.
O período de isolamento levou muitas pessoas a resgatar práticas antigas. No caso da artista, esse regresso foi profundo: uma forma de revisitar o passado e recuperar os fios. Não se tratou de um simples retorno ao início, mas de uma retomada orientada para a criação de algo novo.
O tempo como elemento central da criação
No processo criativo, a produção não é apenas manual. Para a artista, criar é também viver o tempo. No ateliê, rodeada de cores, estímulos e materiais, a principal sensação é compreender o tempo.
Em vez de trabalhar com urgência, a artista cria com presença. O fio transforma-se num habitat e cada peça nasce fio a fio, seguindo uma lógica própria, sem interferências externas. Esta tranquilidade reflete-se no resultado final: as obras não são apenas objetos, mas uma forma de estar no mundo.
Camadas de mistura: cultura, lugares e memória no fio
As obras carregam a biografia da artista. Natural do Rio Grande do Sul, viveu vários anos fora do Brasil e atualmente reside em Cascais (Portugal). Esta trajetória influencia diretamente o trabalho.
Lugares diferentes trazem culturas, línguas, gastronomias e paisagens distintas, que influenciam texturas e materiais. O fio regista, assim, não apenas cor, mas atmosfera.
Dessa forma, as peças refletem camadas de mistura: a história pessoal e os ambientes atravessam a matéria e tornam-se visíveis de forma sutil, mas inevitável.
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