‘Giro’ em Marvão: entre ruínas romanas, castanhas, azeite e memórias de fronteira
Giro|Do R7
No coração do Alentejo, Marvão é um território onde a história parece continuar à superfície, como se o tempo nunca tivesse passado por completo. Entre muralhas medievais, a serra, os campos de oliveiras e antigos caminhos de fronteira, esta região preserva um património que vai muito além da paisagem. Aqui, o passado romano, as tradições agrícolas, a gastronomia e a memória do contrabando entre Portugal e Espanha entrelaçam-se numa identidade viva, feita de várias camadas de tempo e de gente.
A poucos quilómetros de Marvão encontra-se Ammaia, uma antiga cidade romana que durante séculos permaneceu escondida sob os campos do Alentejo. Fundada no período de Augusto, terá sido um importante centro urbano da Lusitânia, ocupando cerca de 25 hectares. Possuía fórum, termas, zonas comerciais e até um anfiteatro recentemente identificado. Hoje, entre ruínas silenciosas e vestígios dispersos, ainda é possível imaginar a organização rigorosa da cidade romana, o traçado geométrico das ruas e a vida quotidiana de uma comunidade plenamente integrada no Império Romano. No museu associado ao sítio arqueológico, objetos como moedas, cerâmicas e inscrições ajudam a reconstruir essa memória, incluindo peças encontradas fora do seu contexto original, como uma escultura romana reutilizada numa fonte ou uma inscrição dedicada ao imperador Lúcio Vero, descoberta numa igreja em Portalegre.
Mas Marvão não vive apenas da sua herança antiga. A região é também marcada pela castanha, um produto identitário do território e importante base da economia local. Com denominação de origem protegida, a castanha de Marvão distingue-se pela qualidade e versatilidade, sendo utilizada em farinhas, doces, compotas e até em produtos inovadores como crepes sem glúten ou farinheira de castanha. Até o gin de castanha reflete esta ligação entre tradição e criatividade, traduzindo em sabor a paisagem da serra e o caráter do território.
A gastronomia acompanha esta riqueza, com uma cozinha alentejana simples e generosa, onde não faltam migas, bacalhau, enchidos, pão, queijo e arroz doce — pratos que refletem uma forma de vida profundamente ligada à terra. O azeite, outro pilar essencial da região, nasce de um olival integrado num ecossistema de montanha equilibrado, onde a natureza participa diretamente na produção. Num antigo lagar ainda preservado, é possível compreender o processo tradicional de transformação da azeitona em azeite, feito através de moagem em pedra e prensagem, uma técnica simples, mas engenhosa, que atravessa gerações.
A memória da fronteira também faz parte desta paisagem humana. Na Serra de São Mamede, os antigos caminhos do contrabando recordam um tempo em que a passagem entre Portugal e Espanha não era feita por luxo, mas por necessidade. Café, açúcar e tabaco seguiam num sentido, enquanto tecidos e bens essenciais cruzavam no outro, muitas vezes durante a noite e por trilhos escondidos. Mais do que um ato de ilegalidade, estes percursos revelam a ligação profunda entre comunidades vizinhas que sempre encontraram formas de sobreviver em conjunto, mesmo perante a dureza das circunstâncias.
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