‘Giro’ em Mértola: a vila que encanta entre a história no subsolo e o céu estrelado
Giro|Do R7
Há lugares que parecem imunes à pressa do mundo moderno, e a vila de Mértola, no coração do Baixo Alentejo, é um deles. Suspensa numa escarpa rochosa e moldada pelas águas do rio Guadiana, esta “vila-museu” convida os visitantes a desacelerar e a embarcar numa autêntica viagem no tempo, onde cada ruela e cada pedra contam histórias de fenícios, romanos e árabes.
Historicamente ligada ao comércio mediterrânico, Mértola chegou a ser a capital de um reino taifa e o porto fluvial mais ocidental do mar Mediterrâneo. Hoje, essa herança reflete-se na arquitetura e na forte influência da cultura árabe que ainda se faz sentir por todo o território.
Uma viagem subterrânea e o guardião do horizonte
O percurso pelo património local começa, literalmente, debaixo do solo. A equipa do programa ‘Giro’ desceu às profundezas da história para explorar o criptopórtico do Fórum Romano. Esta megaestrutura subterrânea com 32 metros de comprimento e seis de altura, erguida há dois mil anos, servia de base à praça principal da cidade e surpreende pela genialidade da sua engenharia, tendo sido desobstruída apenas em 1980.
Cá fora, o caminho em direção ao céu faz-se por ruelas empedradas e casas caiadas de um branco impecável, culminando no castelo de Mértola, o guardião máximo da vila. No interior do pátio, destaca-se a antiga cisterna da época islâmica, que armazenava a água das chuvas e garantia a sobrevivência nos meses de seca. No topo da torre de menagem, com os seus 30 metros de altura construídos no século XIII, a antiga muralha defensiva dá agora lugar a uma das vistas mais poéticas e deslumbrantes sobre o horizonte alentejano e o rio Guadiana.
O alento do Guadiana
A poucos metros do centro histórico, as icónicas Azenhas do Guadiana recordam o tempo em que o pão dependia diretamente do humor do rio. Estes antigos moinhos de pedra, estrategicamente posicionados onde as águas ganham mais velocidade, aproveitavam a força da natureza para moer o grão das planícies. Hoje, desativadas da sua função original, as azenhas transformaram-se num refúgio natural de frescura e lazer para os dias de calor, embora exijam cuidados redobrados por se tratar de uma zona de correntes e sem vigilância.
O comércio local também esconde tesouros com décadas de história. É o caso da geladaria do Senhor Nicolau (Amândio Correia), um negócio familiar que começou na década de 50 com o seu pai, que trouxe a arte do fabrico de Espanha. Num tempo em que a vila não tinha eletricidade, os gelados tinham de ser confecionados e vendidos no próprio dia. Hoje, aos 60 anos de atividade nas traseiras do mercado local, o gelado de baunilha continua a ser um dos segredos mais bem guardados e recomendados pelos residentes.
O encontro com as astrelas
"A Estrela Polar está a 450 anos-luz de distância. Isto significa que a luz que estamos a ver neste momento saiu daquela estrela quando Pedro Álvares Cabral andava no Brasil." - José Zarcos Palma, astrofotógrafo
Ao cair da noite, Mértola revela outro dos seus maiores tesouros: um dos céus mais escuros e limpos de Portugal. Beneficiando de uma poluição luminosa mínima, a região tornou-se um destino de excelência para o astroturismo. Através do olho clínico de guias locais e de equipamento especializado de astrofotografia — utilizando longas exposições para capturar o invisível —, é possível observar o contorno nítido da Via Láctea, o brilho fixo de planetas como Júpiter e Vénus, e constelações como a Ursa Maior.
A experiência noturna ganha contornos mágicos quando o nascimento da lua no horizonte transforma por completo a paisagem, banhando a vila num luar prateado. Mértola despede-se assim dos viajantes, deixando a promessa de que quem olha para o seu céu, nunca mais esquece o caminho de volta.
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